Sexta-feira

Digitais


Golden Cinderella
Upload feito originalmente por Renata Baião
Uma vontade do mar se apodera de mimNão sei explicar.Talvez a leveza das ondasno desejo talvez de transcender, ir alémtalvez pelo amor que se desenrola no friotalvez a ilusão que anda no tapete mágico Todo amor floresce em mim nesta noiteParece que todas as estrelas me olhamMeus pés sonham entrelaçar os teuse a minha boca procura a tua boca Meu corpo quer beber a tua água A dança no silêncio pousa na músicagotas de sereno se derramam ao olhare as palavras jorrando das digitaisprocuram as tuas mãos nesta noite em que o vento que me descobre se veste de branco

Domingo

Pelo amor e por causa do desespero


Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível,é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada.”(Clarice Lispector)

Duas coisas mudam a nossa vida dramaticamente.O amor e o desespero.
O amor transforma pela necessidade de afeto, de carinho e de abrigo, um ser humano enamorado é capaz das coisas mais inacreditáveis e maravilhosas para realizar um amor.O desespero modifica uma pessoa pela falta de ar, pela impossibilidade de encontrar uma saída, pela absoluta perda da razão, uma pessoa encurralada é capaz das coisas mais terríveis pra escapar.O desespero pode ser uma perda definitiva, o amor um inesperado ganho.
Porém ambos são uma espécie de delírio, um desvairado sentimento, um nos tira do eixo porque desloca o nosso centro para um outro corpo e o outro tira a nossa razão porque a ameaça pode significar a impossibilidade de existência no futuro.Embora pareçam ser bem diferentes, o amor e o desespero se assemelham no cerne.A falta de amor pode provocar o desespero e quem ama ás vezes pode se sentir desesperado.Nos desesperamos por amor e muitas vezes amamos por desespero.Porém de todos os desesperos o menos cruel é o desespero por amor.O amor gera novas vidas, o desespero pode provocar o suicídio.
Porque desespero mesmo é um pai que coloca a sua vida em risco quando vai buscar o filho viciado na casa de traficantes de drogas e o encontra desacordado quase em coma. E amor é um casal que se encontra por acaso e que vê nascer uma necessidade infindável de se ver, é a mágica que transforma sal em açúcar, amor é quando ela dá um cheirinho no seu pescoço e aquela sensação de arrepio é um sentimento que mistura o seu desejo pelo feminino com a sua fragilidade de menino. O desespero é um pesadelo que você jamais queria ter vivido ao passo que o amor é um sonho do qual você jamais queria acordar.
Sentimentos tão distintos que movem nossos moinhos, há situações tão desesperadoras que achamos que jamais vamos sair delas. O desespero bate ao vermos as coisas que julgávamos piamente serem sólidas em nossa vida, serem subitamente transformadas em pó Como o diagnóstico de uma doença incurável ou da morte de alguém querido. Mas vida é sábia, ela nos faz renascer das cinzas, sobreviver a queda nos mais profundos abismos, a resignificar tudo aquilo em que acreditávamos. “Quando o coração sofre pelo que foi perdido, o espírito se alegra pelo que ficou.”(Epigrama Sufi)
E o amor nos move na direção daquilo que julgamos ser o lugar mais seguro do mundo, o macio dos braços do nosso amor, seu colo, seu peito, sua boca. O amor é o nosso céu estrelado, é a nossa janela aberta, são as nossas asas eternamente abertas para o vôo mais alto que a nossa alma será capaz de alçar...
“O amor é o sentimento dos seres imperfeitos, posto que a função do amor é levar o ser humano à perfeição.”(Aristóteles)

Sábado

MARIA HELENA BANDEIRA


CIRCULO VICIADO




Fechou o livro e olhou para o parque.
Entardecia. Uma bruma delicada subia da relva, esgarçando-se nas folhas da cerca viva. O sol descia suavemente atrás das árvores.
Estrelas começavam a surgir, quando respondeu:
- É apenas um livro idiota, um romance sobre uma jovem aristocrata e o namorado pobre.
Ele sorriu irônico e segurou o livro com cuidado, como se pegasse fogo.
Agastada, ela correu para a porta de casa, os sapatinhos macios magoando-se nos espinhos. Correu atrás dela, prendeu seus braços e a beijou. Ela então......


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- O que está lendo aí?
Assustada, largou o livro e deixou cair o marcador de couro verde.
Por trás do sofá, ele tentava ler o título, enquanto ela chutava o pobre para baixo da mesa. O rapaz pulou em direção ao volume. Lutaram durante alguns segundos, até que a jovem, vencida, deixou que ele pegasse a presa.
- Memórias de Cantervillle - confissões de uma milionária... desde quando você lê estas coisas?
- Desde quando me dá vontade. Leio o que me interessa e você não vai querer agora tomar conta das minhas leituras, como tenta fazer com os pensamentos.
Ele deixou cair o livro, aborrecido.
- Não regulo suas leituras, muito menos seus pensamentos, fiz apenas um comentário sem maldade.
- E eu estou cansada deste tipo de observação casual que se destina a me policiar...
Ele tentou conter a irritação, se aproximou dela, mas continuava aborrecida.
Jogando o livro longe, se atirou na poltrona e ligou a televisão......


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Quando ele enfiou a chave na porta, tive que parar a leitura e esconder o livro.
Como explicar que preferia ler sobre relacionamentos à especulação filosófica?
Fingi que acendia um incenso. O perfume delicado inundou o pequeno conjugado.
Apanhei a Suma Teológica. Quando ele me beijou, cheirava à cebola. Representei estar apaixonada, segurei sua cabeça e a coloquei entre meus seios.
Ele tentou abrir a blusa, aleguei uma dor de cabeça forte, pedi uma massagem tântrica.
Retirei a coberta de seda e deitei no sofá esfiapado.
Delicadamente, começou a manipular minha coluna maltratada. Pensei nos personagens do livro e refleti:
- É um bom homem, apesar de tudo.
Mas era muito pouco para mim.
Ele se levantou, de repente, irritado, diferente, não entendi o que acontecia...


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- Livro de papel ? Menina, onde encontrou?
Você larga a leitura e responde depressa: no depósito de lixo, ia usar para acender o fogão. O carvão acabou.
Seu homem olha interessado para o livro, tenta folhear algumas páginas, ler o entediava.
Seu homem é viciado em programação neural, nunca entenderia a graça de ficar horas apenas imaginando, sem vivenciar, catando letras numa folha amarelada.
Você sabe que é absurdo, antiquado, irreal.
Mas no momento, tudo se tornou antiquado e irreal, quando você só dispõe de uma caldeira velha, um fogão do século passado e as ruínas de uma casa velha para se abrigar da chuva ácida.
Ele joga o livro no fogo e seu coração sangra enquanto você vê as páginas retorcidas sendo destruídas. Onde achará outro livro de papel?
Seu homem junta as mãos diante de fogo e profetiza:
- Amanhã vai fazer muito mais frio do que hoje...


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- Você ainda lê estas bobagens de Ficção Científica? Veja só, ninguém previu este calor infernal que estamos vivendo.
Olhei para ele:
- Estamos vivendo?....


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Quinta-feira

MARCELO FERRARI

Toca Raul

"Se eu fosse você..." Esta idéia não é o tele transporte da interprise adaptado pra psicologia de aconselhamento? Pense bem, se eu fosse você, você não seria você, você seria eu, e sendo eu, como o meu aconselho poderia estar sendo dado a você? Entende? Bem, estando isto claro, se eu fosse você, esperaria do autor deste texto, eu, no caso, palavras e idéias coerentes, com sentido, seja lá o sentido que você dá a palavra sentido. Não é isto que irá acontecer. Ainda dá tempo de parar de ler. Se bem que você está vendo que o texto é curto e você já está quase na metade. Mas continuando, este que vós fala, eu, no caso, não está aqui hoje pra dizer nada que possa ser lido e compreendido. Hoje não é dia de fazer sentido, assim como domingo não é dia de fazer rotina. Hoje é dia de fazer chuva. Hoje é dia de fazer a água entrar pelo vão da sarjeta, umedecendo a poeira e fecundando o grão de capim. Sim, a natura vai seguir rumo ao mar. Vai brotar da pedra dura, da rachadura, do pavimento, contrariando a cultura e a estética da coerência. Hoje é dia do raciocínio irracional. Dia do não sei. Dia de aceitar que não é preciso ser PHD em quimica pra respirar. Que viver transcende qualquer compreensão, assim como comer chocolate. Dissemos sim e a vida não disse por quê. Dissemos não e a vida sim, vai entende? Hoje é dia do Guilherme tocar Raul:

Se você tentou e não aconteceu, valeu
Infelizmente nem tudo é
Exatamente como a gente quer

Deixa chover, ô ô ô, deixa a chuva molhar
Dentro do peito tem um fogo ardendo
Que nunca, nada, naaaaaada, vai apagar

Sábado

MARIA HELENA BANDEIRA


O Homem Ideal



A primeira vez que vi Renato, minhas pernas amoleceram. Era perfeito, alto, olhos azuis, porte atlético sem exageros. Um deus grego.

O Dr. Gerald, que nos apresentou, sorriu ironicamente. Sabia o impacto que o jovem causaria em mim

Iniciamos uma conversa sobre algumas frases em alemão que ilustravam cartazes no consultório. Renato falava, fluentemente, várias línguas. De lá, saímos para almoçar. Ele conhecia um restaurante coreano no Leblon, escondido por bambus. Comida e paz celestiais.

Assim começou uma amizade pontuada por jantares, cinemas, teatros e conversas intermináveis, que beiravam a madrugada. Todo livro que ele amava, cada música, cada quadro, era o de minha predileção.. E ainda tinha um humor irônico e surreal, parecido com o meu. Almas gêmeas.

Mas era só.

Renato mantinha-se, estritamente, nas brincadeiras amistosas, sem arriscar mesmo um aperto de mão mais indiscreto.

Eu tentara, é claro, com jantares à luz de velas em meu apartamento, que terminavam em sessões de vídeo, ao lado de muita pipoca e frustração.

Já começava a desanimar, imaginando que ele deveria ter algum problema de saúde, ou era gay, quando o imprevisto aconteceu.

Uma noite, voltando do teatro, após uma cansativa sessão de masturbação intelectual explícita, Renato segurou minha mão, carinhosamente, dentro do carro. Depois, me abraçou e continuou a dirigir com uma mão só, enquanto eu me sentia aconchegada e incrédula.

Quando parou o carro, antes que tentasse descer, ele me prendeu com força e começou a me beijar furiosamente.

Deu novamente a partida e, sem uma palavra, seguiu em direção aos motéis da Avenida Niemeyer.

Eu não entendia nada, nem me importava. Finalmente conseguira romper o gelo.

O carro estava a uns 200km por hora, mas não parecia. Se não visse as árvores e os morros desaparecendo, velozes, pelos vidros laterais, a impressão era de um passeio dentro da noite silenciosa.

Renato olhava sério para frente. Senti uma onda de amor por ele e um desejo irresistível de manifestar meu sentimento em gesto.

Minha mão roçou sua nuca, desceu para o braço e caminhou pela perna. Podia sentir os músculos se retesando sob a calça justa.

De repente, Renato largou a direção e me abraçou com violência. Seus lábios procuraram os meus, ofegantes e urgentes e não tive tempo nem de reagir.

Porque o carro, desgovernado, bateu na mureta que separava as pistas, descreveu uma curva de 180 graus, indo se espatifar na montanha, no lado do motorista.

Com o primeiro impacto, fui atirada contra o painel e agora estava caída, imprensada junto da porta, me sentindo completamente tonta, enquanto um filete de sangue escorria da minha testa.

Renato permanecia debruçado no volante, sem movimento algum.

Apavorada, levantei sua cabeça e puxei seu corpo para trás, descobrindo, através de um corte no tórax, as delicadas engrenagens que eram o núcleo central do sofisticado sistema motor do primeiro andróide LOVE exe.

Sobre o painel, o olho, arrancado da órbita de silicone, piscava ainda, ironicamente, para mim.
..

MARIA HELENA BANDEIRA



HUMANIDADE



O pequeno robô JMNXP4 da série 315 caminhava nervoso.

Desde que começara o programa Humanidade 1000 nunca tivera tantas emoções perturbando seus circuitos.
Estava próximo o dia em que poderia se considerar Humano Categoria 1, o máximo que os andróides conseguiam atingir, glória suprema de ser igual aos criadores.

Estudara muito, aprendera coisas absurdas para sua razão matemática – guerras, fome, assassinatos, suicídios, doença e dor.
Com paciência dissecara os motivos, tentara entender a lógica oculta, adormecera com os neurônios positrônicos hiper-aquecidos de pura exaustão intelectual e psíquica.

Era dotado de todas as emoções humanas, mas não conseguia compreender.
Por isto estava excepcionalmente nervoso neste dia em que faria a prova final, de habilitação específica.
Se passasse, seria o primeiro de sua espécie a atingir este estágio. Poderia até casar com a bela Roxane.
JMNXP4 não era imune ao amor. De todos os sentimentos que herdara achava o mais fácil de entender. E assim, seguia para o Centro de Treinamento com o coração, que não tinha, apertado dentro do tórax de plastileno.

Mal chegou ao jardim, viu um homem espancando um cãozinho magro. Aproximou-se e explicou gentilmente:

- Não deve bater neste pequeno animal, ele é indefeso e seu tamanho totalmente desproporcional.

- É meu cão e você não tem nada com isto. Eu o comprei bem caro e ele me mordeu.

- Deve ter mordido por algum motivo, cães não atacam sem razão.

O homem não respondeu e passou a agredir mais violentamente o animal. JMNXP4, irritado com tanta crueldade, arrancou o bastão da mão do outro e com um soco o jogou no chão.

Na mesma hora a sirene tocou e uma voz advertiu:

“Cem pontos perdidos na taxa de humanidade.”

O pequeno robô, perplexo, protestou:

- Mas os homens não devem ter compaixão pelos mais fracos?

“Os humanos sempre serão mais importantes que os animais. Não pode agredir um homem para defender um cão. Deveria ter seguido em frente, sem tentar interferir.”

JMNXP4 engoliu as lágrimas. Neste momento o homem veio para ele com o bastão no ar.

Com medo de tomar a decisão errada, ficou parado.

O outro acertou o bastão no seu braço e estilhaçou a carne de plastileno, danificando os canais de alimentação.
O pior foi ouvir a voz repetir:

“Duzentos pontos perdidos.”

- Mas eu não interferi. Fiquei parado.

“Exatamente. Você deveria ter se defendido. Humanos sempre reagem aos seus agressores, especialmente se forem mais fortes do que eles.”

O homem vinha em sua direção novamente e o robozinho ficou indeciso. O braço danificado iria custar caro e a voz dissera que devia reagir.
Sentia muita raiva do outro, pois ele o fizera perder 200 pontos. Com uma pancada seca, quebrou seu pescoço.

“Final da experiência. Impulsos agressivos exagerados. JMNXP4 está reprovado”

Começou a chorar e quanto mais chorava mais pontos perdia na taxa de humanidade.

Olhou para o cachorro, que apesar de ferido pelas pancadas, lambia o dono e gania.

Na próxima tentativa, ia fazer a prova para Animal Doméstico.

MARIA HELENA BANDEIRA

Aquela Cinderela



Aquela nossa irmã sempre foi um encosto na vida da gente.

Na verdade, irmã apenas de consideração, como dizem os camponeses, porque o pai dela casou com nossa mãe, ambos viúvos.

Desde o princípio percebemos que era meio doida. Falava com pássaros e ratos e cantava nas horas mais improváveis, acordando os cristãos que dormem em horário de pessoas normais.

Quando o pai morreu, a coisa piorou muito e nossa mãe foi obrigada a coloca-la para trabalhar, esperando que a terapia ocupacional a libertasse das fantasias. Ela se preocupava muito com esta herança filial do marido, mas nunca foi compreendida e só recebeu da enteada ingratidão e injustiça.

Mesmo conosco, sempre foi assim, esquisita. Queima nossa roupa com o ferro de passar e deixa amarelar os lençóis alvos de verão. Mas o pior foi hoje, quando tentou usar minhas faixas para consertar um vestido velho, na esperança de conseguir ir ao baile do príncipe. E ainda roubou o colar que minha irmã jogou no lixo. Por sorte, o gato nos avisou, do contrário, teríamos que aturar uma companhia desagradável na festa.

Saímos com mamãe na carruagem e deixamos a mana chorando, coitada – como poderia pensar que o príncipe iria olhar para ela?

Pois qual não foi nossa surpresa quando entrou na festa como convidada desconhecida, com um vestido deslumbrante, carruagem moderna e tudo?

Que ódio! Mais tarde veio com uma conversa de fada-madrinha, abóbora, coisa de pirada, mas nós sabemos que ela devia ter dinheiro escondido que desviou de papai, ladra safada.

O pior foi o truque sujo que usou para chamar a atenção. No meio da dança com o príncipe, ela fugiu, deixando o idiota com cara de bobo. Mas teve o cuidado de deixar um sapatinho de cristal para ser achada mais tarde. Ninguém tem um pé atrofiado como aquele, claro.

E tudo aconteceu como a espertalhona planejou – impossível que outra moça pudesse calçar aquele sapato minúsculo. Bem que a gente tentou, mas foi em vão. Ainda consegui quebrar o desgraçado,mas ela mostrou o outro pé e não teve jeito.

Hoje vive lá no palácio na maior mordomia e não aparece sequer para uma visita. É como diz minha mãe:

A ingratidão dos ricos é proporcional a sua falta de memória.


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