
O Homem Ideal
A primeira vez que vi Renato, minhas pernas amoleceram. Era perfeito, alto, olhos azuis, porte atlético sem exageros. Um deus grego.
O Dr. Gerald, que nos apresentou, sorriu ironicamente. Sabia o impacto que o jovem causaria em mim
Iniciamos uma conversa sobre algumas frases em alemão que ilustravam cartazes no consultório. Renato falava, fluentemente, várias línguas. De lá, saímos para almoçar. Ele conhecia um restaurante coreano no Leblon, escondido por bambus. Comida e paz celestiais.
Assim começou uma amizade pontuada por jantares, cinemas, teatros e conversas intermináveis, que beiravam a madrugada. Todo livro que ele amava, cada música, cada quadro, era o de minha predileção.. E ainda tinha um humor irônico e surreal, parecido com o meu. Almas gêmeas.
Mas era só.
Renato mantinha-se, estritamente, nas brincadeiras amistosas, sem arriscar mesmo um aperto de mão mais indiscreto.
Eu tentara, é claro, com jantares à luz de velas em meu apartamento, que terminavam em sessões de vídeo, ao lado de muita pipoca e frustração.
Já começava a desanimar, imaginando que ele deveria ter algum problema de saúde, ou era gay, quando o imprevisto aconteceu.
Uma noite, voltando do teatro, após uma cansativa sessão de masturbação intelectual explícita, Renato segurou minha mão, carinhosamente, dentro do carro. Depois, me abraçou e continuou a dirigir com uma mão só, enquanto eu me sentia aconchegada e incrédula.
Quando parou o carro, antes que tentasse descer, ele me prendeu com força e começou a me beijar furiosamente.
Deu novamente a partida e, sem uma palavra, seguiu em direção aos motéis da Avenida Niemeyer.
Eu não entendia nada, nem me importava. Finalmente conseguira romper o gelo.
O carro estava a uns 200km por hora, mas não parecia. Se não visse as árvores e os morros desaparecendo, velozes, pelos vidros laterais, a impressão era de um passeio dentro da noite silenciosa.
Renato olhava sério para frente. Senti uma onda de amor por ele e um desejo irresistível de manifestar meu sentimento em gesto.
Minha mão roçou sua nuca, desceu para o braço e caminhou pela perna. Podia sentir os músculos se retesando sob a calça justa.
De repente, Renato largou a direção e me abraçou com violência. Seus lábios procuraram os meus, ofegantes e urgentes e não tive tempo nem de reagir.
Porque o carro, desgovernado, bateu na mureta que separava as pistas, descreveu uma curva de 180 graus, indo se espatifar na montanha, no lado do motorista.
Com o primeiro impacto, fui atirada contra o painel e agora estava caída, imprensada junto da porta, me sentindo completamente tonta, enquanto um filete de sangue escorria da minha testa.
Renato permanecia debruçado no volante, sem movimento algum.
Apavorada, levantei sua cabeça e puxei seu corpo para trás, descobrindo, através de um corte no tórax, as delicadas engrenagens que eram o núcleo central do sofisticado sistema motor do primeiro andróide LOVE exe.
Sobre o painel, o olho, arrancado da órbita de silicone, piscava ainda, ironicamente, para mim.
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